domingo, 12 de dezembro de 2010

Construí sonhos


Do tempo que levei a sepultar palavras
Das palavras que transformei em silêncios
Dos silêncios que deixei sem repouso
Do repouso a que lancei fogos
Dos fogos que secaram fontes
Das fontes que me levaram a memória aos rios
Dos rios que sem trégua derrubaram minhas pontes
Das pontes donde mirei abismos
Dos abismos onde redescobri a minha dimensão
Da dimensão onde instalei a minha resistência
Da resistência onde me perdi em labirintos
Dos labirintos da esperança que me restou
Construi sonhos
Para que ninguém desse conta
Que as palavras sepultaram silêncios
Condenaram vidas
Adiaram lutas
E que num planeta sem luz pode morrer uma bandeira.

Clara Roque Esteves


Fome de quê?

E foi assim que ali entrei, passando a factos um equilíbrio de pernas trôpegas, como se fosse surpreendida no meio duma visão percorrida no crepúsculo.
Demorei algum tempo a olhar para tudo, ondulando enjoada, como folha no chão que nem o vento consegue arrastar.
Abrandei a voz, desimpedi caminhos e voltei a rodar em torno do meu contrário, depois de encaixar às costas o peso da decisão: Uma história sem sonoridades.

De repente, era como se ali não estivesse ninguém. Eu via a savana sair-me ao caminho numa opressão amarga, abria as pernas à violência da mágoa, esgaravatava os ventos em segredo, apreendia mensagens em surdina, bebia o fel que a tristeza não queria, fazia-os bonitos para os navios que teimavam em não chegar ao porto. E pensava no odor das acácias amarelejando algures lá longe, onde vozes se repetiam na cadência dum linguajar que me não era estranho.

Os dias passavam por todos e abrandavam a voz como se faz quando os ventos repetem ecos que se não conseguem explicar.
Alguns vezes olhava para trás, depois de esboçar um sorriso reservado a olhos que reconhecem o infortúnio, mas sempre, sempre a olhar.
Não se fez à estrada porque esperava que um raio de sol lhe projectasse imagens coloridas ou alguma riqueza de amor lhe cintilasse ainda um qualquer nascer de aurora.
E cada dia que passava era um purgatório onde se mantinha prisioneira, ela e os filhos..
A luz dos partos mostrara-se abençoada e, por vezes, os ventos até parecia soprarem de feição. E passava para o papel da vida imagens com uma mestria ou uma versatilidade de desenhadora de cenários independentes, convivendo, no mesmo grau com a  fome, a solidão e o amor, num desempenho profundo das sensações da maternidade para que fora talhada.

E vieram algumas primaveras sem temporizador, deslizaram anos arrumadinhos em cima do tempo e toda a gente fazia de conta que o tratado, incaracterístico, era para cumprir.

Encontrou-se de pé num navio altamente conturbado e em risco de execução sem julgamento. Um fio de cabelo separava literalmente a sua vida de um futuro novo.
Observou as luzes a partir das grades das janelas, debruçada sobre a rua onde folheara histórias, aconchegando penas e amolecendo raivas sem grande sonoridade.
Desenhou as linhas do futuro cobrindo o rumo com tintas coloridas, não discutiu o preço das telas e, num só traço, fundiu olhares e descansou noutro chão o sufoco dos seus seios ainda com bicos....

O que é o painel?

O que é o painel?